Protesto sobre árvore da Av. João Pessoa 

Imagens do local:  1,   2 

 A primeira árvore da fila (uma tipuana, ou acácia da espécie tipa), localizada no início do Viaduto Leopoldina, em frente à Faculdade de Direito, foi pivô de fato histórico que causou grande repercussão na imprensa e na sociedade gaúcha, em meados da última década de 70. No plano de construção do Viaduto (cujas obras estavam sendo iniciadas) da Av. João Pessoa sobre a Perimetral (Av. Loureiro da Silva), estava previsto derrubar uma lista de árvores, inclusive esta,  para viabilizar o alargamento da pista de rolagem.  Às 11 horas do dia 25/02/1975, chegaram funcionários da Secretaria Municipal de Obras e Viação, com a missão de cortar as árvores sobre a calçada, em frente à Faculdade de Direito. Faltava uma última árvore para ser derrubada, quando foram almoçar ("para terminar o serviço depois"). Nesse ínterim, um estudante da Faculdade de Engenharia Eletrotécnica, Carlos Alberto Dayrel (natural de outro Estado do Brasil, e morador da Casa do Estudante, situada do outro lado da avenida), aproveitou para subir na árvore e, assim,  evitar que fosse derrubada. Logo teve a solidariedade e apoio de transeuntes, e mais dois estudantes (Teresa Jardim, da Faculdade de Biblioteconomia; e Marcos Saracol, da Matemática) também a galgaram. Em plena época da ditadura, tal ato constituía "ofensa grave e intolerável" à ordem instituída pelo "regime de exceção".  

Todavia, a atitude desafiante dos jovens logo impressionou e sensibilizou os transeuntes, que passaram a assistir a cena insólita e, em seguida, a gritar para que a prefeitura interrompesse o trabalho.

No transcorrer dos acontecimentos, o Batalhão de Choque da Brigada Militar foi chamado, transformando a Av. João Pessoa numa verdadeira praça de guerra. Mais tarde, o diretor da Faculdade de Engenharia conseguiu subir na árvore, e negociou a descida dos estudantes (com a garantia de que a árvore iria ficar e nada aconteceria a eles).  No final do "entrevero", a promessa do secretário municipal de Obras e Viação, de que a árvore não seria cortada, foi mantida, mas alguns jornalistas (que cobriam o acontecimento) foram espancados e dois dos estudantes foram levados presos para o temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).  

A árvore continua lá, como símbolo de resistência a um crescimento desvairado; e o fato criou uma nova consciência na cidade,  que ampliou o valor e o espaço para questões relacionadas ao meio-ambiente e à natureza  (Porto Alegre foi, depois, a primeira cidade a contar com uma Secretaria Municipal do Meio-Ambiente na sua estrutura administrativa; plantou, também, crescente número de árvores nas suas ruas e praças,  vindo a constituir, depois, a capital do Brasil com maior densidade de árvores por habitante).

Em 28/04/1998, o pacato engenheiro Carlos Alberto Dayrel voltou para receber o título de "Cidadão de Porto Alegre", conferido pela Câmara Municipal.

(Fonte: Rio Grande do Sul: um século de história, de Carlos Urbim, Lucia Porto e Magda Achutti. Porto Alegre: Mercado Aberto,  1999,  v. 2,  p. 625-626).

Esse texto foi composto por Luis Roque Klering, e apresentado na seção da "câmera 2" do site Wcams em 02/11/2001.