1955: o ano em que nasceu a feira

CARLOS ANDRÉ MOREIRA

A Feira do Livro de Porto Alegre começou com 14 bancas numa Praça da Alfândega que era o ponto de convergência do lazer da cidade, defronte a uma Rua da Praia com trânsito de veículos, na qual as pessoas passeavam no fim da tarde, em meio a bondes elétricos, confeitarias acolhedoras e cinemas de calçada. Mas principalmente: a primeira Feira do Livro, inaugurada em novembro de 1955, nasceu em outra Porto Alegre, uma metrópole em gestação com pouco mais de 400 mil habitantes, ares de província, um ritmo mais lento e uma vida social e econômica fortemente ancorada no Centro.

- As pessoas se conheciam por nome e havia a possibilidade de famílias inteiras estenderem cadeiras preguiçosas na frente das casas e ficarem conversando noite afora - relembra o porto-alegrense Paulo Sant'Ana, com 16 anos em 1955.

Porto Alegre tinha 50 mil analfabetos, 10 jornais diários e era uma cidade em que as famílias passeavam olhando vitrines, à tarde, numa Rua da Praia ainda sem o Calçadão. Sem televisão, ia-se muito ao cinema, e a cidade dispunha de vários.

- Eram cerca de 60 cinemas naquela época em Porto Alegre. Apenas na Rua da Praia havia o Rex, o Imperial, o Guarani, o Cine Rio e o Cinema Central - conta o historiador Sergio da Costa Franco, com 33 anos à época. Ironicamente, Costa Franco raramente freqüentava algum desses, preferindo as sessões do cine Eldorado, próximo à sua residência, no bairro São Geraldo.

As corridas dominicais do Prado, à época ainda não localizado no Cristal, mas no Moinhos de Vento, também eram uma grande atração. O Grande Prêmio Bento Gonçalves - em 1955 realizado em seis de novembro e vencido pelo alazão Salomão - era o ápice da temporada turfística, ao qual compareciam senhores engalanados e senhoras e senhoritas vistosas em seus chapéus, adorno que à época já deixava de ser usado com freqüência.

Paqueras de juventude

Mas voltando à Praça da Alfândega. Já foi visto que era, portanto, programa de família, mas equivalia também ao que a juventude de hoje chamaria de ponto da "balada". Lá pelo fim da tarde, a partir de umas 17h, rapazes se posicionavam estrategicamente na Rua da Praia, cabelos curtos irrepreensivelmente penteados e mantidos no lugar com fixador Glostora. Trajando camisa social aberta no colarinho - para dentro da calça de tergal, obviamente -, os galantes moços aguardavam, um pé sobre o cordão da calçada e outro no leito da Andradas, a passagem das jovens que transitavam pela Rua da Praia como se num desfile.

- Ficavam os aprendizes de cafajestes, eu incluído, na calçada observando as moças. Trocávamos olhares. Se alguma garota correspondia, aqueles com mais cara-de-pau deixavam a calçada, cumprimentavam-na e ficavam andando ao lado dela, "escostavam" nela, como se dizia - conta o patrono da Feira de 2003, Walter Galvani, à época com 21 anos e repórter recém-contratado para a redação do Correio do Povo.

O jovem casanova se dedicava então a acompanhar a moça em seu "footing", já tentando conseguir informações preciosas. A principal delas, a que baile ela iria no fim de semana. O baile era um divertimento. Era chique envergar a melhor roupa (os rapazes, terno e gravata borboleta, as moças, longos vestidos) e acompanhar as noitadas do Clube do Comércio, embaladas pelo Conjunto Melódico Norberto Baldauf, no qual o crooner Edgar Pozzer despontava como o galã dos sonhos de muita moça casadoira. Mas o Clube do Comércio não era exatamente uma unanimidade

- Era muito seleto, não era para o bico de qualquer um, e por isso eu e meus amigos da vizinhança do Bom Fim íamos aos bailes da Casa do Estudante, na Riachuelo, oudo Círculo Social Israelita, no andar de cima do cinema Baltimore - recorda o escritor Moacyr Scliar, na época um jovem esquerdista de 18 anos, prestes a concluir o curso Científico no Colégio Júlio de Castilhos.

Um gênio em gestação

Ainda no ano anterior, em um dos ensaios do grupo Norberto Baldauf, o radialista Paulo Deniz havia apresentado à trupe um expansivo prático-farmacêutico de Santiago do Boqueirão, Túlio Piva, que de vez em quando se abalava de sua cidade para a Capital apenas para mostrar nas rodas boêmias seus sambas de batida cativante. Naquele ensaio mesmo, Baldauf acertou a gravação em disco do samba Tem que Ter Mulata. A canção se tornaria sucesso imediato e seria requisitada constantemente não apenas na Casa Victor, a grande loja de discos da época, na Rua da Ladeira, como nas rádios da cidade. O sucesso da gravação foi tal que incentivou Piva a mudar de mala e cuia de Santiago para Porto Alegre e a abrir em (adivinhem) 1955 sua Drogaria Piva, na (adivinhem de novo) Rua da Praia, quase esquina com Dr. Flores. Além de farmácia propriamente dita, logo o estabelecimento seria também ponto de encontro para os boêmios da cidade.

Outro artista ainda iniciante que perambulava macambúzio por Porto Alegre naquele ano de 1955 era um baiano franzino de 24 anos, bigodinho fino, quieto, vozinha sussurrante acompanhada ao violão bem tocado - às vezes a voz em um andamento e o instrumento em outro. João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira provocou estranheza e admiração em apresentações nas noites da cidade, especialmente no Clube da Chave, na Rua Castro Alves, cuja especialidade era um suculento carreteiro de lingüiça.

O inventor da bossa nova ainda era chamado de Joãozinho quando passou cinco meses em Porto Alegre entre o verão e o inverno de 1955, em companhia de seu amigo mais próximo, o músico Luis Telles, e conversando com o pianista e compositor erudito Armando Albuquerque. João viera do Rio por insistência do amigo Telles, para curar os estragos em sua auto-estima provocados por uma fase ruim. Era reservado demais para acompanhar o "footing" diário na Rua da Praia - preferia passar o tempo em seu quarto com banheiro no Hotel Majestic - mas não se furtou, em algumas ocasiões, a flertar com as jovens presentes à requintada Confeitaria Central, no Largo dos Medeiros (na esquina da Andradas com a General Câmara), um dos bons endereços da cidade para se levar uma "pequena" a um encontro romântico ou trocar idéias com amigos.

Sob a sombra de Getúlio

A instituição moderna da "happy hour" era desconhecida, mas as confeitarias e cafés espalhados pelo Centro eram pontos certos para encontrar amigos, conversar ou mesmo impressionar uma garota durante um encontro. Além da Central, dominavam a paisagem a Confeitaria Cruz de Malta, os cafés Old Viena, Rex, Roxy, além da tradicional Nova Confeitaria Matheus, na Andradas, defronte à Praça da Alfândega. Bebia-se café - os mais jovens tomavam refrigerante mesmo - e conversava-se muito. E 1955 foi um ano que deu o que falar.

Falava-se muito de política. Os mais fortes candidatos à prefeitura de Porto Alegre eram Leonel Brizola (que acabou vencendo) e Euclides Triches. O trauma do suicídio de Getúlio Vargas, no ano anterior, ainda era tema de muita discussão, sem falar dos acalorados debates sobre a eleição presidencial, para a qual concorriam Adhemar de Barros, Juarez Távora, Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek - o eleito. Juscelino venceu as eleições de 3 de outubro, mas até que tomasse posse, em 31 de janeiro de 1956, o Brasil teve três presidentes, e a feira começou com o Exército de prontidão. Café Filho, vice de Getúlio, empossado após a renúncia, pediu licença por alegados motivos de saúde em 5 de novembro, e deixou o presidente da Câmara de Deputados, Carlos Luz, em seu lugar. Convencido de que se tramava um golpe contra o presidente eleito, o marechal Teixeira Lott pôs suas tropas na rua, depôs Carlos Luz e empossou o presidente do Senado, Nereu Ramos.

- Havia uma instabilidade política muito grande, que a vitória do Juscelino não amenizou, mas também não havia uma apreensão generalizada, antes uma expectativa - analisa Ruy Carlos Ostermann, que na época tinha 20 anos e ainda vivia em São Leopoldo, vindo a Porto Alegre esporadicamente.

- Era um acontecimento a vinda à Capital. Vinha-se pela estrada do Horto Florestal, demorava-se uma hora ou mais - relembra.

Paixões - da carne e da bol

Também falava-se muito de futebol. Novembro, o mês da feira, foi também o da definição do Campeonato Citadino, no qual o Inter havia começado em quarto lugar e, depois de uma arrancada fulminante e um returno invicto, ultrapassara o Grêmio, conquistando o título metropolitano em 20 de novembro, no estádio dos Eucaliptos, contra o Força e Luz. Mais tarde, o time do Inter - apelidado de "Rolinho", como se fosse um segundo "Rolo Compressor", equipe histórica dos anos 40 - conquistaria também o título estadual, batendo o Brasil de Pelotas, campeão do Interior, em dois jogos. O esquadrão vencedor? Lapaz; Florindo e Oreco; Mossoró, Odorico e Lindoberto; Luizinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Chinesinho. Apesar de tudo, aquele ano não foi apenas de revezes para o Grêmio. Havia o Estádio Olímpico, construído no ano anterior e estalando de novo, e o Grêmio passava sua primeira temporada sob o comando daquele que devolveria ao tricolor a hegemonia em 1956, baseado num estilo inédito de força e disciplina tática: Oswaldo Rolla, o Foguinho. Mesmo numa época sem videoteipe, o futebol mobilizava paixões.

E Porto Alegre em 1955 era uma cidade de intensas paixões, embora o romance fosse casto. O "ficar" dos dias de hoje era uma impossibilidade. O comedimento nas relações entre garotos e garotas revestia de importância fundamental gestos como a primeira vez em que o casal pegava na mão ou o primeiro beijo. Sexo, teoricamente, só depois do casamento, embora, como em tudo, houvessem rapazes e moças que burlavam as rígidas interdições. Muitas vezes, com resultados desastrosos.

- Eram tristemente comuns na época os suicídios das pessoas que, muitas vezes fora de si de paixão, se atiravam do alto do Viaduto da Borges. O pior não era a queda, mas a passagem dos bondes logo abaixo - lembra Moacyr Scliar.

Podiam ser tempos mais inocentes, ma non troppo. Com a gravidade nas relações românticas e a mentalidade mais conservadora da época, os cabarés eram muito requisitados para que se desafogassem os apelos da carne preservando a honra das famílias. Algumas casas mais célebres da Capital incluíam o American Boîte e o Marabá, próximos à Gare da Viação Férrea, e o seleto e muito dispendioso Mônica, no Cristal, do qual era habitué em seus tempos de solteiro o pecuarista e mais tarde presidente da República João Goulart.

Não importando de onde os boêmios viessem, contudo, muitos deles acabavam no mesmo lugar, claro que no Centro: o Restaurante Treviso, no Mercado Público, aberto dia e noite e que recebia sambistas, freqüentadores de clubes e mesmo uma ou outra das "profissionais" do American Boîte, certos de que às três ou quatro da manhã aquele último porto seguro estaria aberto para receber os famélicos e os exaustos. No dia seguinte, a vida retomaria seu curso - e ele com certeza passaria pelo Centro.

(Fonte do texto e das imagens: Segundo Caderno, Zero Hora, 30/10/2004)