ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO DOS MUNICÍPIOS DO RS EM 2004

Matéria publicada na ZH do dia 29/01/2006

 

Como crescer: Riqueza em dobro

CAROLINE TORMA
 

A maioria tem menos de 10 mil habitantes e é jovem. Fora isso, há pouco em comum entre os 107 municípios gaúchos que mais do que dobraram sua riqueza, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) entre 1994 e 2004. É a diferença que os coloca no topo do ranking de estudo elaborado pelo professor Luis Roque Klering, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Diversificar a matriz econômica é, segundo Klering, o fermento da receita para crescer. Uma gestão focada e empreendedora, a preocupação em capacitar a mão-de-obra e a definição de estratégias são outros ingredientes fundamentais.

Na primeira colocação da lista das economias em expansão está Glorinha, com avanço de 2.463%. No outro extremo, Palmares do Sul, com queda de 63% (confira a tabela à direita). Para a pesquisa, Klering considerou apenas os 426 municípios gaúchos emancipados até o ano de 1994.

Entre os que cresceram na década estudada, apenas três têm mais de 100 mil habitantes. São Viamão, Gravataí e Cachoeirinha. Já 86 têm menos de 10 mil moradores, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

- Os pequenos largam em vantagem porque conseguem definir sua vocação com mais clareza - afirma o pesquisador.

Avanço na maioria dos municípios no Litoral Norte

Mantendo uma constante, a Metade Sul continua em desvantagem quando o assunto é riqueza. Apenas 15 cidades com crescimento superior a 100% estão na área mais empobrecida do Estado.

Canguçu faz parte da exceção, apesar de concentrar o maior número de minifúndios do país e calcar a economia na agricultura. De acordo com o prefeito Cássio Luiz Freitas Mota (PP), foi o plantio de fumo, iniciado há seis anos, que salvou o município.

- Dos R$ 150 milhões gerados no ano passado, R$ 90 milhões vêm do fumo. Isso se reflete em todos os setores, do comércio à construção civil - acrescenta Mota.

Klering acrescentaria a expansão da eletrificação rural na análise:

- A população é tão pobre que a luz tem um impacto importante. Agora, cabe ao município saber dar continuidade a isso.

Outra região que merece destaque é o Litoral Norte. A maioria dos municípios está entre os 107 que registraram expansão do Produto Interno Bruto. O resultado está interligado à migração. Das 10 cidades onde a população mais cresceu no Estado nos últimos cinco anos, sete são do Litoral Norte. Com o avanço tecnológico, a melhora na infra-estrutura e a busca pela qualidade de vida, mais gente passou a viver na praia. Grande parte destes imigrantes são aposentados.

Colaboraram Dionara Melo, Eduardo Cecconi, Marcos Fonseca, Mauro Graeff Júnior, Pietro Rubin e Silvana de Castro

( caroline.torma@zerohora.com.br )

Confira o ranking
Os 10 maiores PIBs no Estado em 2004, em US$ bi:
Porto Alegre 6,79
Canoas 3,87
Caxias do Sul 3,34
Triunfo 2,25
Gravataí 1,48
Novo Hamburgo 1,26
Santa Cruz do Sul 1,07
Rio Grande 1,05
Sapucaia do Sul 0,89
Passo Fundo 0,86
Os que mais cresceram em 10 anos (1994-2004), em %:
Glorinha 2.463
Aratiba 2.083
Garruchos 1.458
São Vendelino 582
Os que mais recuaram em 10 anos (1994-2004), em %:
Palmares do Sul -63
Pinhal Grande -61
Salto do Jacuí -56
Herval -51
Fonte: Luis Roque Klering, professor da Escola de Administração da UFRGS
 
A metodologia
O ranking dos PIBs dos municípios é elaborado a partir de um indicador, o Valor Adicionado Fiscal (VAF), processado sob responsabilidade da Secretaria Estadual da Fazenda. O VAF não inclui todos os itens de produção, como aluguéis, serviços profissionais, lucros financeiros, investimentos públicos e produção informal.
O PIB gaúcho foi de R$ 149,233 bilhões em 2004. O estudo estimou o valor do PIB em US$ 54,9 bilhões, usando uma taxa referencial de conversão de R$ 2,718. O uso dessa taxa tem por meta normalizar o efeito das flutuações do câmbio ao longo dos 10 anos estudados.
As receitas
Para crescer
- Apostar na diversificação, alternando atividades do setor primário com turismo e industrialização
- Encontrar a vocação local
- Investir em educação e na capacitação de mão-de-obra
- Atrair grandes empresas e usufruir do empreendimento para fomentar outros setores
- Valorizar o avanço tecnológico
- Investir em infra-estrutura
- Apostar no empreendedorismo
Para empobrecer
- Não se renovar
- Ficar só na tradição agrícola
- Apostar num único setor, sem ensinar os trabalhadores a serem empreendedores
- Não valorizar a educação
- Não dar importância aos pequenos negócios nem identificar as vocações
- Não conseguir reunir interesses do setor privado e público
- Não oferecer infra-estrutura, segurança e qualidade de vida
Fonte: Luis Roque Klering, professor da Escola de Administração da UFRGS

Um cenário de pastagens vira celeiro de indústrias
TATIANA CRUZ
 

Houve uma época em que Israel Tobias Ferreira Sandim, 25 anos, achava Gravataí pequena demais. Glorinha, então, nem se fala. Para o encarregado de fazer xis numa lanchonete, esta cidade distante 45 quilômetros de Porto Alegre era ainda uma área rural, bucolicamente adormecida no ritmo das pastagens.

Mas enquanto Israel passava de chapista de lanchonete para cobrador de ônibus, o município emancipado em 1989 de Gravataí mudava de perfil. Próximo à Capital, Glorinha virava celeiro para seis novas indústrias e endereço de gente como ele: em busca de oportunidades.

- Um mês depois de deixar currículo, fui chamado - conta o hoje estudante de Administração de Empresas e mecânico de manutenção da Fibraplac, empresa de fibras de MDF do grupo Isdra, responsável por 450 empregos e 70% da arrecadação do município, onde já está duplicando o parque fabril.

Mas é quem nasceu no município que mais enriqueceu em 10 anos que nota melhor essa diferença.

- Antes, achava que aqui era pequeno demais. Que, para vencer na vida, só me mudando. Hoje, com essas empresas, temos mais opções de comércio, de restaurantes. É melhor porque não preciso ficar longe dos meus amigos e da minha namorada - diz Vinicius Pereira dos Santos, 20 anos, também funcionário da Fibraplac.

Vinicius enumera agora dois postos de gasolina (antes era apenas um), dois loteamentos residenciais em desenvolvimento. O estabelecimento Casa da Dinda, conta, era só uma padaria, e acabou virando também restaurante, bar e lancheria.

Mas nem tudo na líder de crescimento é perfeito. Além de shopping, cinema e outros entretenimentos, tem gente que apela por educação.

- Faltam escolas profissionalizantes - reclama o supervisor de manutenção da empresa, Cincinato Bezerra Neto, um dos milhares de novos moradores da cidade que, desde 2000, segundo a prefeitura, viu sua população crescer 50%, chegando hoje a cerca de 6 mil.

( tatiana.cruz@zerohora.com.br )


Uma dependência que preocupa
 

No município que apresentou a maior queda no PIB em 10 anos, Diego Teixeira Braga, 24 anos, se sente um felizardo.

Empregado na Cooperativa Arrozeira Palmares Limitada, principal indústria beneficiadora de Palmares do Sul, o estudante do Ensino Médio dá graças a Deus por não precisar tomar o mesmo rumo de muitos amigos de sua idade.

- Vi muita gente ir para Porto Alegre achando que lá ia ser mais fácil, mas não foi. Voltaram com uma mão na frente e outra atrás - conta.

Ficar ou não na cidade tem a ver diretamente com uma economia que depende do arroz. Conforme a secretária da Indústria e Comércio, Ivânia Backes de Oliveira, 90% da arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) vem da colheita do produto.

- É uma tragédia. A gente sofre com os preços cada vez mais baixos e a concorrência de outros Estados - lamenta a secretária.

João Paulo Müller, presidente do Sindicato Rural, lembra que cerca de 90% dos produtores não estão capitalizados e faz uma comparação.

- Costumo dizer que, quando o arroz vai bem, a gente não consegue pedreiro, madeireiro, eletricista, nada, está todo mundo na lavoura. Quando vai mal, a gente vê pedreiro dando chute em pedra - lamenta.

João Tadeu Vasconcelos (PTB), prefeito da cidade, contesta, porém, a explicação de que é a oscilação do preço do arroz a principal vilã do PIB. Segundo Vasconcelos, houve um erro de informação da Secretaria da Fazenda do município para a do Estado entre 1995 e 1996, que teria feito aumentar o índice de valor adicionado de ICMS. Quando o Estado corrigiu esse erro, diz o prefeito, o índice caiu pela metade.

- Além disso, perdemos as receitas de Capivari, que se emancipou - afirma o prefeito.

Em dificuldades
 

Dos 426 municípios analisados, 60 empobreceram entre 1994 a 2004. Entre as maiores cidades, destaque negativo para Pelotas, cujo PIB ficou praticamente estagnado: já teve o sexto maior PIB em 1984. Em 2004, ficou em 14º lugar.

Novo Hamburgo foi o município que registrou o maior declínio econômico entre as que têm mais de 100 mil pessoas. A perda chegou a 10,69%.. Na seqüência está São Leopoldo, com redução de 9,65%.

Metade Sul
 

Depois de perder participação no PIB, a Metade Sul está obtendo uma lenta e gradual recuperação nos últimos anos.

Produção diversificada
 

Criação de aves e suínos, plantação de acácia e eucaliptos e indústrias calçadista e metalúrgica. A atração de empresas nesses segmentos em 10 anos colocou São Vendelino, na Serra, entre as que mais cresceram no Estado.

De propriedade de três irmãos oriundos do município, a Fibras Bonfanti, fábrica de pára-choques para caminhões, é uma das que puxam a expansão da cidade.

- Aqui as empresas são pequenas, como o município (de 1,7 mil habitantes). Mas desde que abrimos, estimamos crescimento de 30% a 40% - diz Adão Bonfanti, um dos donos da empresa.

Com dinheiro,sem empregos
 

Com 6,8 mil habitantes, Aratiba, no norte do Estado, tem dinheiro, mas faltam empregos. A vinda da usina hidrelétrica de Itá aumentou a arrecadação, e a prefeitura pôde investir mais em pequenas empresas, infra-estrutura, saúde e educação. Mas ainda não teve reflexo no número de empregos nem incrementou a circulação de dinheiro na economia local.

Esperança no reflorestamento
 

Herval sente na pele a crise que se arrasta na Metade Sul. O ano de 1996, quando ocorreu a emancipação de Pedras Altas, foi emblemático.

Herval contribuiu com 70% de área do novo município, onde se encontravam as grandes cabanhas e lavouras produtivas de arroz. A esperança agora é o reflorestamento, com a vinda de multinacionais do setor de papel e celulose comprando terras e fazendo parcerias para o plantio de eucaliptos.

Disputa judicial
 

Em Pinhal Grande, na região central, a energia gerada pela hidrelétrica de Itaúba alimentou os cofres da prefeitura até 1999. Depois, a regra mudou, e o dinheiro passou a ser repartido entre cidades da região.

De franco crescimento, o município reverteu para a decadência.. A prefeitura entrou na Justiça contra o Estado contestando o cálculo do valor adicionado do ICMS e pedindo a devolução do dinheiro que teria deixado de receber.

Efeito pedra ágata
 

Além da frustração na agricultura devido a estiagens, a retração verificada em Salto do Jacuí se deve à crise no setor de pedras ágatas. Desvalorização do dólar, aumento de custos na extração e baixo preço pago pela pedra semipreciosa no mercado internacional causaram a crise no município.

- Os preços pagos no Exterior vêm prejudicando muito as indústrias daqui e, conseqüentemente, nossa economia - ressalta o vice-prefeito do município, José Clóvis Tramontini (PP