As Pequenas Cidades Onde a Qualidade de Vida Acontece

Luis Roque Klering *   

Na reportagem "Cidades fora do Mapa" publicada em 15/11/2008, a Revista Veja tece críticas injustas à criação e existência de 29 municípios gaúchos que foram criados por lei em 1996, e instalados no primeiro dia de 2001, referindo que o "FPM acaba servindo para sustentar uma casta de privilegiados, já que cada novo município precisa ter prefeito, vice, vereadores e um batalhão de servidores públicos".

De fato, como ente da Federação Brasileira, cada novo município possui uma organização própria prevendo a instituição de prefeito, de um vice e de vereadores. Todavia, a informação seguinte é descabida, porque não se ancora em dados oficiais sobre a quantidade de servidores públicos existentes nesses municípios, cujo quadro de servidores está próximo da média de 2% de servidores em relação à população dos municípios, estando longe de formar um alegado "batalhão".

Em defesa da existência e razão dos pequenos municípios, inclusive dos 29 municípios gaúchos instalados em 1996, pode-se recorrer a uma matéria da própria Revista Veja, do dia 10 de outubro de 2007, intitulada "Um Brasil Europeu". Nesta matéria, a Revista Veja anunciava de forma eufórica de que em 20 municípios gaúchos da região da Serra Gaúcha despontava um novo conjunto de indicadores, caracterizando um lugar de brasileiros bem instruídos, de economia vibrante e de instituições que funcionam. Dentre os bons indicadores destacados, foram elencados: baixos níveis de pobreza, de analfabetismo e de criminalidade; de alta expectativa de vida, de expressivo percentual de jovens freqüentando universidades, baixa taxa de mortalidade infantil, baixo nível de desemprego e elevado percentual de domicílios com água encanada. Dentre os 20 municípios enfocados, um deles (Bom Princípio) é destacado como exemplo de gestão pública; outro (Picada Café), na gestão da saúde; mais outro (Linha Nova), como exemplo de tranqüilidade (segurança). Tais distinções foram ancoradas em estatísticas oficiais, especialmente do IBGE.

A matéria poderia ter ampliado seus elogios a mais municípios do que chamou de "Vale da Felicidade", incluindo também, por exemplo, o pequeno município de Tupandi, que também integra a região, que obteve a melhor classificação no IRFS (Índice de Responsabilidade Fiscal, de Gestão Interna e Social) no ano de 2006, dentre mais de 4 mil municípios brasileiros avaliados pela CNM-Confederação Nacional de Municípios.

A surpresa da matéria atual deve-se à contradição em relação à matéria de então: dos 20 municípios integrantes do que foi chamado pela revista de "Vale da Felicidade" na matéria de 2007, praticamente todos são pequenos e recentes, tendo sido emancipados nas décadas de 80 e 90. De fato, eles estão dentro do mapa brasileiro, para a felicidade do país. Porque ali a vida acontece. Nestas pequenas e bem administradas cidades, o governo chega próximo de todos: desde mesmo antes que a vida se manifeste nas mães gestantes, até que ela deixe saudades. É por isso que a qualidade de vida melhora expressivamente: todos, de todas as idades, perfis e condições, recebem atenção maior e mais próxima, em todos os sentidos, via melhores serviços de educação, saúde, cultura, lazer, informações, empregos, moradia, e tudo mais.

Com isso, todos saem ganhando: a própria população, as localidades, os municípios, os Estados e o governo federal. Viver nesses pequenos paraísos é uma questão de opção de qualidade de vida. É muito mais seguro, mais barato e melhor viver ali, do que nas periferias das grandes cidades, em que muitas vezes governos paralelos já controlam a vida de populações inteiras.

De fato, justiça seja feita, uma boa parte da melhoria dos indicadores de qualidade de vida que estão acontecendo nos rincões desse imenso país se deve às emancipações que ocorreram nos últimos anos. É bom para todos, inclusive para o governo federal, que poupa na mobilização de contingentes do exército para controlar favelas, na construção de prisões e de hospitais, e que melhora os indicadores sociais, inclusive o sentimento de brasilidade, porque aonde existe um município, ali também existe um pedaço no mapa de um Brasil melhor e mais integrado. 

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